pratica_filosofica - Boletim mais ou menos diário
February 4, 2025 at 06:10 PM
“– Quem estará nas trincheiras ao teu lado?
– E isso importa?
– Mais do que a própria guerra.”
(Ernest Hemingway)
Por essas e outras, não basta prudência, tirocínio e foco nos interesses materiais do mundo do trabalho – o que implica pensar e pesar bem o que esteja em jogo na sua subsunção como trabalho abstrato capturado pelo Reino da Mercadoria como fim em si mesmo.
Para não perder o bebê e a água do banho, convém evitar más companhias ao assinalar seja o apoio seja o repúdio a fatos, tendências, sistemas ou combates X, Y ou Z. Equívoco que acontece mesmo entre amigos próximos ou pessoas que eventualmente admiramos. Detectado algum equívoco, que se erre diferente para se errar melhor pelo menos.
Mao Tsé-Tung chamaria essa avaliação de discernimento de contradições fundamentais e secundárias. O bom combate exige livrar-se da companhia de maçãs podres, a um só tempo execráveis, tóxicas, perniciosas, peçonhentas.
Veja-se, como exemplo, a máxima de Brizola, sempre e a todo momento válida: se a Globo é contra, eu sou a favor. Se a Globo é a favor, eu sou contra.
Entretanto, evitar más companhias não significa estar liberado tornar-se um 'case' da machadiana Teoria do Medalhão, a variar de posições conforme o contexto social: por exemplo, durante a semana, em discursos no parlamento ou em artigos de jornal, um defensor das liberdades individuais. Chega o sábado, vira o medalhão para o outro lado, dá um pulinho no seu latifúndio de cana-de-açúcar movido a trabalho escravo e vai pessoalmente à senzala chicotear quem da escravaria tenha 'aprontado algo' durante a semana. Avance-se dois séculos nos ponteiros do relógio, e a desfaçatez de classe que sustenta tais cambalhotas segue dominante alhures e algures.
Limite que vale também para o campo da militância que se diga de esquerda. Por exemplo, vou inventar casos, qualquer semelhança com casos reais são mera coincidências:
(1) não tem como ser, hipoteticamente falando, um marombado influencer youtuber 'marxista' negro nordestino professor de história que, na virada da década, porque 'maoísta', defenda, hipoteticamente falando, o 'socialismo' chinês e, agora, hipoteticamente falando, passar a militar em outra facção nanopartidária e sem qualquer autocrítica passar a atacar, hipoteticamente falando, os horrores do capitalismo selvagem chinês.
Ou então (2) você ser um ex-doutorando em história que, hipoteticamente falando, domine até idioma morto a milênios por conta de seu abandonado objeto de estudos, que se mantenha, hipoteticamente falando, conhecido como youtuber stalinista a defender live sim outra também a revolução comunista e, hipoteticamente falando, fazer uma live com um ex-banqueiro.
Ou pior, (3) haja medalhão para virar do avesso: ser hipoteticamente falando esse mesmo ex-banqueiro, ex-sócio do Pactual (tem Guedes nisso também?), e, hipoteticamente falando, tornar-se também ele um youtuber a "fazer hedge" com todas e quaisquer alas políticas "pró-sistêmicas", da ultradireita protofascista local a outros tantos defensores do 'socialismo" chinês, de especialistas cinco estrelas da academia a cardeais da militância parlamentar do MBL, de CEO's a gerente de estacionamento, hipoteticamente falando claro haja medalhão para libertar tanto conhecimento espargido mediante tantas cambalhotas.
Ainda bem que tais casos não existem fora desse texto que tu lê agora, e não estejam por aí pelas ruas e redes alegres e faceiros, ufa, já pensou, bicho?
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