pratica_filosofica - Boletim mais ou menos diário
February 13, 2025 at 06:19 PM
*O pathos moderno em “Pai contra mãe”, de Machado de Assis*
A imagem que ilustra esse post é um cartaz que promete recompensa a quem "capturar' o citado "escravo fugido". É uma recompensa do tipo que move o enredo do conto machadiano que permite colocar a seguinte questão: como pensar a _"figuração de forças sociais em disputa em determinado momento histórico nos destinos individuais dos personagens artisticamente criados"_?
Para dar conta dessa questão, trago uma breve nota apresentando o texto "O pathos moderno em 'Pai contra mãe', de Machado de Assis", de Ana Cotrim, docente da UnB dentre outras atuações.
A autora, a quem seja dado a podcasts, é convidada para falar do realismo em Lukács em um programa duplo do Ontocast,
parte 1: https://open.spotify.com/episode/4co4FPwJETLJWN4ZSpSVYm?si=klPdw45FSs-yZ01NZwBHhw
parte 2: https://open.spotify.com/episode/2gGnon0QvteYKAQ0HaRrY5?si=1VE4YkeATbavfUqAM8vx7w
A nota editorial que faz as vezes de prefácio ao artigo afirma que a _"autora nos apresenta como os personagens do conto machadiano - Cândido e Arminda - encarnam em seus destinos individuais forças sociais em conflito no Brasil escravocrata, donde, naquelas circunstâncias sócio-históricas, prevalece aquela força social encarnada por Cândido Neves: a naturalização e a legitimidade social da escravidão, então em voga, a tortura e a repressão brutal sofridas pelas pessoas escravizadas, em suma, prevalece a desumanização de Arminda - e, portanto, a desumanização de toda a população escravizada - frente a sua desesperada e impossibilitada tentativa de se fazer humana"_, informa-nos .
O artigo principia percorrendo a disjuntiva individual x coletivo nas ações marcadas por paixões que organizem ações dos indivíduos como tal e como parte de um povo, a fim de entender o sentido da retomada por Lukács na noção hegeliana de 'pathos' para falar da tragédia grega.
Sem economizar na retomada dos principais momentos das obras tratadas (_vai longe o tempo em que se pressupunha leitores letrados, tê-los alfabetizados é o máximo que podemos fantasiar hoje)_, a autora inicia seu roteiro com a figura de Antígona em seu embate com a imposição da lei da cidade para fora de seus muros por Creonte e passa em seguida pela absolvição de Orestes mostrando a passagem da lei da tradição a segundo plano, a fim de extrair _"tanto de Antígona como de Orestes, Sófocles e Ésquilo criam ações que colocam seus personagens diante de dilemas: o conjunto de situações que enfrentam conduzem-nos ao extremo, de modo que os conflitos vividos na cidade são trazidos à tona nas suas pessoas: encarnam-se nas suas paixões. Assim, não é apenas o seu grau de paixão, o extremo que se condensa em seus caracteres, mas também as situações criadas que impulsionam o afloramento desses conflitos que, de outro modo, poderiam permanecer subjacentes e mesmo ocultos na vida social"_
E aqui o pulo do gato: _"Com o desenvolvimento moderno e a conseguinte separação entre público e privado, a literatura perde a possibilidade de fazer encarnar em seus personagens diretamente valores éticos, públicos, universais. Entretanto, de acordo com a formulação de Engels seguida por Lukács, a literatura realista continua se caracterizando por “personagens típicos em situações típicas”. Quer dizer que os artistas modernos seguem criando ações e situações diante das quais os personagens manifestam, por suas ações, seu elevado nível de paixão."_, quer dizer, mesmo sem a unidade imediata individuo-pólis, ainda podemos propor essa interação operando a construção de personagens para fazer falar "_os interesses do conjunto da sociedade ou com um dos valores ou forças sociais em luta"_.
Mas esse passo exige refazer, com o filósofo húngaro, algumas mediações que deem conta do protagonismo literário e as esferas das vidas em que se dá a obra, em particular na "literatura realista" em sua forma de trabalhar a _"o material da vida privada"_.
Toda essa abertura foi para preparar a entrada em cena do Machado, primeiro em sua recepção pelos contemporâneos e seus mal-entendidos. Já desde os necrológios ao autor, Ana nos mostra o papel da escravidão na conformação, seja da recepção das suas obras, seja para a sua escritura, e vai aprofundá-lo com uma leitura do conto “Pai contra mãe”, publicado em 1986 no 'Relíquias da Casa Velha', centrando o
(1) _"exame na figura de Arminda, por ser uma personagem que, a despeito do pouco desenvolvimento que encontramos no que tange ao seu caráter e personalidade, concentra em si, pelo movimento da ação, das interrelações com os demais personagens e pela peculiaridade do narrador, o pathos e o destinos de toda a classe"_, e, em seguida
(2) mostra como, _"pelo viés do narrador, que expõe com clareza, mas naturaliza a escravidão como uma ordem humana e justifica a tortura como meio de manter tal ordem, somos preparados para compreender a consciência de Cândido Neves não como exceção, mas sim como um modo da consciência dominante"_.
(3) Como lidar com o fato de que _"ambos vivem um mesmo drama; ambos querem salvar o próprio filho, Cândido, da Roda e da miséria; Arminda, da escravidão"_? Pois bem: após percorrer toda a trama, emerge que _"na sociedade escravista, evidentemente, não existe igual legitimidade (...) Nesta ordem social, o conflito só pode ter um vencedor, e esse vencedor só pode ser o elo mais forte, neste caso – simbolicamente – o “pai”, branco livre e pobre. É claro que Arminda é arrastada e devolvida ao dono, que paga a recompensa a Cândido. (...) Como Lukács nos mostra, nas obras de arte o desfecho lança luz a todo o enredo, conferindo-lhe significado. Aqui, terminamos com o sentimento de Cândido de legitimação e naturalização de um ato que contradiz o seu sentimento mais profundo, o amor parental."_
Após esmiuçar os vários passos para essas subconclusões justapostas acima, dentre tantas outras, encerro esse post com uma parte do parágrafo final do artigo:
"Machado desvenda assim o significado vivo da escravidão, tanto a humanidade dos escravizados, impedida de se realizar, como o modo como ela molda os caracteres das outras parcelas da sociedade, explicitando o nível de desumanização que se imprime no caráter da classe dominante e seus parasitas no processo de impor a sua dominação. É com esse desvendamento que Machado alcança a unidade do destino individual e do destino universal, dos indivíduos e das classes que representam, ou seja, a tipicidade ou pathos moderno."
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