Devocional do Abreu 📜
Devocional do Abreu 📜
May 27, 2025 at 12:12 PM
Liberdade Libertária e Compatibilista Outra questão que me veio à mente ao estudar a tensão soberania divina-responsabilidade humana foi: se Deus ordena as coisas para cumprir seus propósitos, o homem não pode ir contra seus desígnios, então como isso é liberdade? Essa pergunta é uma reflexão que exige uma distinção cuidadosa entre diferentes conceitos de liberdade e a natureza da soberania divina. Soberania de Deus e Ordenação dos Eventos Deus é soberano e ordena todas as coisas segundo a sua vontade (Ef 1:11). Isso significa que nada acontece fora de seu plano, incluindo as ações humanas. No entanto, a forma como Deus ordena os eventos não implica que Ele force os seres humanos a agir contra sua vontade ou que elimine sua capacidade de escolha. O que é Liberdade na Teologia Reformada? A teologia reformada distingue entre dois tipos de liberdade: * Liberdade Libertária: É a ideia de que a liberdade requer uma capacidade absoluta de escolher entre opções sem qualquer determinação ou influência externa. Essa visão, comum em algumas filosofias, não é aceita na teologia reformada, pois implica que o homem teria um poder autônomo que rivalizaria com a soberania de Deus. * Liberdade Compatibilista: É a visão reformada de liberdade, que afirma que a liberdade humana é compatível com a soberania divina. Um ser humano é livre quando age de acordo com sua própria vontade, desejos e inclinações, mesmo que essas ações estejam sob o controle soberano de Deus. Em outras palavras, liberdade não significa independência absoluta de Deus, mas a capacidade de agir voluntariamente, ser coerção externa. Por exemplo, Caim matou Abel porque quis, movido por sua inveja e ira (Gn 4:5-8). Ele não foi forçado por Deus a cometer o ato; sua ação foi uma expressão de sua própria vontade pecaminosa. No entanto, essa ação estava dentro do plano soberano de Deus, que permitiu e ordenou o evento para cumprir seus propósitos (como revelar a gravidade do pecado). O homem pode ir contra os desígnios de Deus? Há um livro chamado “Tomando decisões segundo a vontade de Deus” do Héber Campos Jr. que fala sobre a vontade de Deus. Pela perspectiva reformada, há uma distinção entre dois aspectos da vontade de Deus, vontade decretiva e preceptiva. * Vontade Decretiva (ou Soberana): É o plano eterno e imutável de Deus, que determina tudo o que acontece (Is 46:10). Ninguém pode frustrar essa vontade, pois ela é absoluta e sempre se cumpre. Por exemplo, a morte de Abel estava dentro da vontade decretiva de Deus, que usou o pecado de Caim para seus propósitos redentivos. * Vontade Preceptiva (ou Moral): É o que Deus comanda aos seres humanos, expresso em seus mandamentos (por exemplo, “Não matarás”, Êxodo 20:13). Os seres humanos podem desobedecer à vontade preceptiva de Deus, como Caim fez ao assassinar Abel, mas isso não frustra a vontade decretiva, pois Deus incorpora até mesmo o pecado humano em seu plano maior. Assim, o homem pode ir contra os mandamentos de Deus (vontade preceptiva), pecando, mas não pode frustrar os desígnios últimos de Deus (vontade decretiva). A liberdade humana opera dentro dos limites da vontade soberana de Deus. Por que Isso é Liberdade? A liberdade não é a capacidade de agir de forma absolutamente autônoma, mas a capacidade de agir segundo sua própria vontade, mesmo que essa vontade esteja limitada pela natureza humana e pela soberania divina. Após a queda (Gênesis 3), a humanidade tem uma natureza pecaminosa (Rm 3:10-12), o que significa que suas escolhas são inclinadas ao pecado, mas ainda são escolhas livres no sentido de refletirem os desejos do coração. Exemplo Bíblico Em Gênesis 50:20, José diz aos seus irmãos: “Vós intentastes o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem.” Os irmãos de José agiram livremente ao vendê-lo como escravo, movidos por seus próprios desejos pecaminosos. No entanto, Deus, em sua soberania, ordenou esse evento para um propósito maior (salvar muitas vidas). Os irmãos eram livres (agiram segundo sua vontade), mas suas ações estavam sob o controle soberano de Deus. No caso de Caim, ele escolheu matar Abel porque quis, refletindo sua natureza pecaminosa. Deus não o forçou a pecar, mas permitiu e usou essa ação para cumprir seus propósitos. Caim é responsável porque agiu voluntariamente, e sua liberdade é real no sentido compatibilista, mesmo que suas ações não possam frustrar o plano soberano de Deus. Alguém pode considerar que os seres humanos estão condicionados a agir de determina maneira e que, por isso, poderiam ser isentos de culpa. Mas não é bem assim. Três pontos têm que ser destacados: * Os seres humanos agem de acordo com seus próprios desejos e intenções, não por coerção divina. * Deus governa de forma que as escolhas humanas, embora sob sua soberania, são genuínas e moralmente responsáveis. * A soberania de Deus opera de maneira misteriosa, incorporando as ações livres dos homens em seu plano sem violar sua agência. O Mistério Teológico A teologia reformada reconhece que a harmonia entre a soberania divina e a liberdade humana é um mistério que excede a compreensão humana, mas, como disse D. A. Carson, essa tensão não é um problema; em vez disso, é uma estrutura a ser explorada. “Explorar essa tensão é explorar a natureza de Deus e seus modos de lidar com os seres humanos” (D. A. Carson). Textos como Deuteronômio 29:29 (“As coisas encobertas pertencem ao Senhor, nosso Deus”) sugerem que nem todas as tensões teológicas podem ser plenamente resolvidas, embora possamos seguir seu caminho de aprendizado até onde nos for possível, em busca de um melhor entendimento acerca da natureza e da pessoa de Deus. A liberdade compatibilista aceita que o homem é livre em suas escolhas, mas essas escolhas estão sempre dentro do escopo da vontade soberana de Deus. Nosso desejo de sermos autônomos e independentes de Deus nos faz querer sermos completamente livres de qualquer influência, mas esquecemos que somos criaturas. Deus nos fez e nos colocou debaixo de sua soberania. Sermos humildes e procurar compreender a natureza de Deus, sem ignorar a nossa, é o que tem que ser feito, é a vontade de Deus. Resumo O homem não pode frustrar os desígnios últimos de Deus (vontade decretiva), mas é livre no sentido de que age segundo sua própria vontade, mesmo que limitada por sua natureza. Essa liberdade compatibilista significa que as ações humanas, como o pecado de Caim, são voluntárias e responsabilizam o indivíduo, mas estão sob o controle soberano de Deus, que ordena todas as coisas para seus propósitos. Assim, Caim não é uma marionete, mas um agente moral responsável, cujas ações livres cumprem o plano divino. O paradoxo aparente, a tensão entre soberania e liberdade é mantido como um mistério, mas não nega a realidade da responsabilidade humana. 1587. 26.05.2025. Soli Deo Gloria.

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